Sobre a Encenação

Belavista é o retrato infiel do mundo de uma adolescente solitária. A história, contada a várias vozes, é escrita num quarto de dormir com vista para o bairro. Um bairro, naturalmente, comum. Demasiado perto de nós para que o possamos esquecer…

Nesta produção, o início do percurso de um novo projecto – o Ensemble – unidade de projectos artísticos da Escola de Artes Performativas e Teatro do Elefante, o bairro é visto através de três janelas. A janela aberta na parede do quarto da personagem, de onde lhe é permitido avistar a rua. A janela do mundo virtual, acessível no monitor do seu pc. E a janela de sons e imagens em movimento, a caixa de tv.

A primeira daquelas janelas permite a bela vista de que desfruta Liliana, Lili, a personagem contadora de histórias que “umas vezes são engraçadas, outras são tristes”. Janela indiscreta. Revela as cumplicidades possíveis numa rede social que se define pelas relações de vizinhança, exactamente, no bairro da Belavista. Território povoado por gente vulgar, num dia tão invulgar como outro qualquer.

A segunda das janelas proporciona o registo das suas histórias e dos seus pensamentos. É o caderno diário da sua aventura criativa. Configura-se como campo das memórias, ainda que algumas não passem de ficção, invenção ou projecção de futuro.

 A última das três janelas estimula as novas narrativas, criadas por Lili. Preenche o lugar vazio de relações sociais de uma jovem adolescente que sofre de uma deficiência rara, ainda que conhecida, que lhe provoca uma reacção alérgica aos raios solares. Doença que impõe um regime de clausura, quase total, apenas quebrado pela sua mãe. Figura, no entanto, ausente na peça.

 Lili resolve, então, povoar o seu quarto de amigos. Uns reais. A maioria, fictícios. Entram e saem das suas histórias, e do seu universo real, como se se tratassem de personagens retiradas de uma série televisiva, de um policial. E são poucos, aqueles que saem inocentes desta trama, feita de falsos inspectores e pequenos delinquentes de bairro.

É um mundo feito à medida de jovens inquietos, que se ocupam nas ruas desarrumadas do bairro de prédios degradados, e de adultos improváveis, que mais parecem figuras de filmes de animação. Entre tiros, socos, suspeitas e cumplicidades, Lili vive isolada no seu quarto, num sexto andar, no Bairro da Belavista.

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